segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Coragem

 Afinal em que consiste a coragem, qual o limite entre a temeridade, ou até a bravata impensada e a coragem?

Nunca achei que coragem é não ter medo, pelo contrario, coragem, a meu ver, é ter medo sim, e quanto maior o medo ao enfrentar uma situação e dela não fugir, maior será a coragem.

Coragem pode ser física, e espiritual, sem demérito da física, ainda acho a espiritual maior, pois você enfrenta a si mesmo, desafia um igual tão imprevisível como você o é para si.

Os demônios com os quais têm que lutar são filhos de suas dores, traumas, experiências e dificuldades, eles te conhecem, eles te sabem, eles são você. Esta luta de você com você, é uma luta em que você sempre perderá as batalhas, pois lutará em dois lados, mas ganhará a guerra, pois conhecerá o inimigo que te habita e saberá lidar com ele, não o vencerá, mas conviverá, e poder conviver com seus demônios, sem que eles o possuam, é ganhar a guerra pela sua alma.



O sonho de uma criança

O sonho de uma criança ainda é uma das poucas coisas boas que sobraram nestes tempos um tanto frios e individualistas, sinta-se do outro lado da carta...



Algo errado...

Escuto muito sobre fios soltos e pontas a atar. Mas exatamente o que determina uma ponta? Como atá-la, como percebê-la?

Pontas podem ser vistas, percebidas, sentidas, imaginadas? Seria a sensação de algo errado, ou ainda incompleto o que geraria estas sensações, que no fundo é uma só?

No recente filme estrelado por Sean Penn, “Aqui é o meu lugar”, o seu personagem repete várias vezes ao longo da narrativa a frase:

- Há algo errado, mas eu não sei bem o que é, só sei que há algo errado.

Mais ou menos isto, em uma tradução meio livre, mas com este exato sentido, para não ter que recorrer ao célebre bardo e sua famosa fala sobre haver “algo de podre no Reino da Dinamarca”, que é mais definitiva e dirigida.

Ora, muitas vezes esta sensação, como o personagem de Sean Penn diz ter, pode estar fundamentada em algo que está acontecendo, poderá acontecer ou já aconteceu e deixou este rastro misterioso e desconfortável no seu caminho.

Seria então esta a sensação das pontas soltas? Pode ser, pois até esta última pergunta tende a remeter para algo errado...



sábado, 10 de novembro de 2012

Reféns assumidos do definitvo

O definitivo é um risco, pois nele se encerra o fim da busca, e a busca nos mantém vivos, viver é especular, buscar, tentar, acertar e errar.

Às vezes penso se o completo, se o feito, não é só uma rendição, só uma forma de aceitar o que no momento nos parece imperioso?

Não falo de tarefas pontuais, de ações de curso e desfechos cartesianos, falo daquelas que trazem embutidas em si mesmas a semente do provisório, do casual, do duvidoso, quero falar do risco.

Cortejar e depois flertar com o risco é uma espiada através da fresta escura das coisas que guardamos em quartos remotos, que teimam em existir iluminados por velas antigas, através de teias e pó dos tempos que nos lembram de sua existência por mais que tentemos ignorar que lá estão, mas que sabemos que existem, porque sentimos que existem, e sentir sempre foi mais que ver.

Muitas vezes nos refugiamos na confortante rotina da vida que temos, recordando com pudor as experiências vividas, com o viés da dúvida calma, como se elas jamais tivessem acontecido, porque elas sempre teimam em fugir do previsto e do definitivo, são arrivistas a desafiar as nossas pobres certezas, e a elas cedemos em suave torpor, no ópio dos sonhos irreais, sem acordar, pois despertos já estamos e não nos damos conta disto.

Que viva o sonho, dimensão irmã da realidade.



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Só o que é

Pois é, então é assim, simples, liso, claro, brilhante e transparente como um diamante sem jaça. 

Reto, sem curvas para distrair, sem margens a descobrir e confundir, sem cores a definir, só o brilho seco e parado das coisas óbvias, sem difusão, nem interpretação.

Simples assim, na crueza do sentido, sem nuances, o fim da especulação, da explicação, só a resposta sem adereços, só o que é, sem vácuo e nem espaço, não cabem, pois é o que é.

Sem sombras, nem proteção, ao sol e chuva, na primitiva forma criada, sem nome e sobrenome, sem adjetivos, só o substantivo nu e impávido, brilhando como um farol arrogante na noite das dúvidas perenes, pois é o que é.

O que é, já está descrito por ser.



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Razão e emoção

Somos seres curiosos, para pouco dizer e não derivar na filosofia fácil, mas temos uma tendência, quase compulsiva, de vestir o manto da culpa, mesmo que não nos caiba, somos alfaiates rápidos em ajustá-lo na busca de um perdão não pedido e nem devido.

Cumprimos penitências não impostas, purgamos atos não cometidos, por vezes somos juízes severos de nós mesmos que decretam sentenças irrecorríveis, e para que?

Para que consequências sem causas façam sentido?

Para que consequências ganhem substância e corpo, quando foram só atos fortuitos e sem culpa? 

O culto da culpa é uma forma canhestra de justificar o que não pede explicação, pois dela prescinde por inútil, só nos serve como catarse duvidosa e viciante, que se alimenta de nossa bondade, pois se ser bom é tolice, que tolos sejamos e que na visão idílica da sábia ingenuidade nos embriaguemos, pois de seca, já basta a solidão da culpa indevida.

Somos seres feitos de carne, ossos, desejos e culpas, e que nenhuma prevaleça além de sua medida sobre a outra, senão perdemos o frágil centro, equilibrio precário da condição humana, sempre na cruel balança da emoção e razão. 



Lado

Do outro lado havia um lado, e deste lado um outro lado que sucedia mais lados.

Os lados são o lembrete da dualidade permanente das coisas, sempre existiram e sempre existirão, somos o lado de cá flertando com o lado de lá, somos o lado que olha de lado para o outro lado.

Lados nos definem e confinam, mas legitimam.

Do outro lado havia um lado, o lado de cá que visto do lado de lá, era sempre o mesmo lado, o lado do lado, do lado de cá.




quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Segue...

Na confusão ansiosa das noites quebradas gritam os raios do dia exigindo o seu espaço, pedem razões perdidas e nunca achadas. 

E segue a vida rachada, entre ser e poder ser, esperneando contra o posto, negando o desgosto, sentindo cheiro para lembrar o gosto, numa rima pobre que pede seu espaço, sem poder ter.

E a vida segue bebendo da água da dúvida, esperando o que deseja improvável, na confiança dos bêbados que se negam a acordar, pois o sonho não precisa ser viável, só ser sonhado.

E segue o rio, protelando, protestando nas curvas e margens incertas, mas fluindo na certeza inevitável de seu destino, o mar imenso que não o percebe, mas dele vive, já que mais do que ter ido é continuar indo.

Mais do que ser entendido é ter sido, mais do que viver é ser, mesmo sem nunca ter sido.



terça-feira, 6 de novembro de 2012

E esta tal de felicidade?

Como falar de felicidade?

Leio centenas, talvez milhares de definições, mas nenhuma me convence, e nem poderia, pois felicidade é uma percepção pessoal. Não exige e nem pressupõe razões, pois razões coletivas são meros placebos que induzem ao conforto na pluralidade exposta.

Ser feliz é o destino e razão do ser humano, ninguém, salvo os sociopatas, e certa forma até eles, deixa de ansiar vida toda em serem felizes. Mas como percebê-la?

Às vezes pode ser um estado duradouro, mas isto é raro, na maioria das vezes é uma situação de curto prazo e grande intensidade. Sim, não é só uma mera semelhança, a felicidade é um orgasmo, curto, intenso e sempre almejado, iconizado até.

Felicidade, como sexo, não enjoa, não cansa e quando mais se faz e espera fazer, mais se quer, é uma espécie de vício benigno, a dependência eterna da condição humana. 

A busca constante da felicidade é um destino confesso e compulsório.



Who cares?

Pois é, voltamos a atualizar o blog, e procurando assunto, mesmo com as eleições americanas, com o rescaldo do “Sandy”, ainda acho que falta assunto, digo assunto que realmente diga respeito a nós, e não à nossa natural curiosidade.

Ora, sejamos francos, que diferença pode fazer a nós pobres mortais, aqui na terrinha, qual será o novo presidente do grande a arrogante irmão do norte? Fora as teorias de conspiração sobre a perseguição de somos vitimas de rotina, membros que somos de uma lista permanente de bodes expiatórios, vistos e definidos por eles como refúgio de radicais e outras asneiras de mesmo teor, que a cada crise é relida, nada muda seja quem for o sagrado pelas urnas nos Estados Unidos.

Mas este deslumbre tupiniquim, lembra muito os indígenas trepados em árvores vendo os portugueses desembarcarem suas contas de vidro, seus espelhos e sua prepotência colonizadora, saímos das arvores e fomos para a frente da TV, as contas coloridas nos chegam pelas mãos dos hábeis intermediários da mídia colonizada.

A irreverente revista MAD (veja como também sou colonizado, rsss), tinha como lema: “Quem, eu me importar? Alguma coisa como “Who cares? Quem se importa? 

Bem, eu não...



domingo, 4 de novembro de 2012

Das coisas sonhadas e vividas

Por vezes me sinto tentado a pensar que as melhores coisas da vida são aquelas que foram sonhadas e não as que se realizaram.

Ninguém sonha com dificuldades, com obstáculos, com sacrifícios, eles existem para impedir ou serem superados pela avaliação pragmática do desafio ao sonho.

As coisas sonhadas são sempre perfeitas, não deixam consequências ruins, pois ninguém sonha com consequências ruins, elas são produto de um sonho posto em prática na realidade.

As coisas sonhadas são perfeitas, pois são editadas por nossa vontade e desejo, são sofismas autoindulgentes, são sonhos afinal.

As coisas sonhadas são a melhor saudade, mesmo que doa, pois são o que poderia ter sido se a realidade não as atropelasse.

É, talvez eu tenha razão, infelizmente, mas as coisas sonhadas são o delírio amargo que nos lembra de nossa doce ilusão, mas são lembranças fortes e eternas, muito porque nunca aconteceram e nem poderiam pois foram o nosso duplo idealizado.



Imagem inversa e escolhas

O duplo, o dobro, o dual, a opção, a bifurcação, o binário, o negativo, o oposto.

A vida se divide em duas, em duplas e contrapontos, como de fugir de escolhas, se elas fazem parte da dualidade das coisas?

Somos um só diante bifurcações que se bifurcam geometricamente a cada escolha, novas divisões a cada decisão e opção.

Já foi dito que devemos manter as opções em aberto, mas creio que ao contrário, as opções nos obrigam a sermos abertos, pois quem não opta, não vive.

Até um espelho que deveria nos refletir exatamente, nos inverte.



Roubando a alma?

Alguns nativos, indígenas ou sei lá qual o nome politicamente correto para referir-se a eles, pois eu prefiro somente designá-los como pessoas, tinham a crença de que a fotografia que o branco trazia lhes roubaria a alma se para ela posassem.

Curioso, mas com muito fundamento, empírico, espiritual, atávico, difícil dizer, mas com fundamento sem dúvida, pois imagens colhidas de momentos vividos eternizam situações, roubando-lhes a continuidade, congelando e cristalizando.

Seja em preto e branco, dualidade da vida, seja sépia, tempo da vida vivida, seja em cores, promessa de vida, a fotografia sempre eterniza a alegria, a dor, a vaidade, o instante, o perene, o fátuo, o continuo, o registro de algo que passou e redesenha o momento permitindo que este seja revivido a cada vez que é mirado.

É, sem dúvida, se não rouba a alma, pode aprisioná-la em um momento qualquer.


Eu acredito

Eu acredito, e acredito mais ainda quando não tenho porque acreditar.

Eu acredito porque acreditar é duvidar do impossível, do difícil, do improvável, duvidar do curso natural das coisas.

Eu acredito no que não deveria acreditar. 

Eu acredito no que não poderia acreditar.

Eu acredito no inacreditável, porque acredito no paradoxo.

Eu acredito que não devia acreditar no que acredito, por isso eu acredito.

Não acredito na esperança, pois acreditar nela é duvidar daquilo que acredito.

Só não acredito no que disse acreditar, mas lembrem de que acredito no paradoxo...



                                                                                              

Noite

Desbravando a noite, embalado por seus ruídos ocos e surdos, andando a luz de velas apagadas.

A noite é uma espécie de metáfora do limbo entre dias, tem vida e regras próprias, é um tempo de espera e medos novos, tempo oculto, antítese oblíqua do dia, contraponto do previsto e visto, a noite é uma silhueta do dia, mas silhuetas nem sempre são fiéis à imagem que as gera.

De dia se anda para algum lugar, na noite só se anda.